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» São Paulo, a "megapóle de luxe"

12/02/2007
 

Ignorando a miséria, a capital econômica do Brasil é o QG dos abastados, com os seus bares, seus hotéis luxuosos, suas butiques com heliporto.
O poeta brasileiro Augusto Campos, nascido em 1931 em São Paulo, caligrafou a palavra luxo, "luxe" em francês, na capa de um folheto. Na parte interna, uma letra muda, deixando aparecer a palavra lixo, "poubelle". Se a coabitação do luxo com o que há de pior tornou-se um lugar-comum em matéria de paisagem brasileira, São Paulo, a sua capital econômica, encarna o mais fielmente possível a terra de contrastes sul-americana.

Com 35% do produto interno bruto (PIB) brasileiro concentrado no Estado de São Paulo, a "megapóle" é mesmo uma capital do luxo, com as suas Fashion Weeks (semanas da moda), os seus parques semeados de obras de Oscar Niemeyer, o arquiteto do concreto curvado, e as suas bienais de arte contemporânea.

A "megapóle" passou de 30.000 habitantes em 1870 para 21 milhões em 2005, tornando-se assim a terceira maior cidade do mundo, a mais importante do hemisfério sul. Fundada em 1554 por um pequeno grupo de jesuítas, ela possui hoje 2.578 arranha-céus.
A "cidade hospitaleira", conforme ela mesma se define, gaba-se de abrigar 900.000 cidadãos de origem japonesa, e cerca de 3 milhões de descendentes de italianos. Na mesa, isso se resume a sushis magníficos, pizzas com muzzarella assim como no país dos búfalos, cantinas aos montes e tabules sírio-libaneses à vontade.
 


 Loja da Daslu ocupa um enorme e luxuoso prédio com direito a heliporto
 

Ao longo de cinco séculos, São Paulo fez do seu gigantismo a sua força e o seu caráter bizarro. Um ponto de passagem obrigatório para quem lida com negócios, e uma cidade de intensa atividade cultural, São Paulo tem tudo da aglomeração anti-turística: uma selva de pedra, engarrafamentos, anéis rodoviários; um Centro voltado para o pequeno comércio, que fica esvaziado dos seus camelôs e dos seus empregados ao anoitecer.
São Paulo é uma cidade "à americana", com os seus shoppings, seus bairros residenciais, seus bolsões de miséria. Contudo, ela é fascinante, por ser uma espécie de contraponto energético em relação à malemolência hedonista do Rio de Janeiro, a antiga capital do Brasil.

Cestas a preço de "foie gras"
Uma cidade extremada onde o dinheiro jorra aos borbotões, São Paulo é, segundo os geógrafos, "um mar de colinas", totalmente ondulado. Sobre uma dessas protuberâncias, o bairro do Jardim Paulista desce de um lado e de outro da Avenida Paulista, um símbolo do sucesso econômico da cidade, com a sua arquitetura contemporânea espantosa, entrecortada por algumas antigas residências de mestre, vestígios das baronias do café do século 19.

Paraísos para os passeadores, esses antigos "jardins" são uma zona protegida do grande risco - seguranças e fisionomistas de terno preto ou azul escuro ficam conversando em frente às lojas e aos restaurantes com os seus colegas motoristas e guarda-costas.

Situado no coração desta cidade disparatada, este triângulo de ouro protege os afortunados da economia mundial e a clientela estrangeira. Butiques de luxo, restaurantes de cardápio "nouvelle cuisine" e pontos de encontro descolados. Por exemplo, no Clube do Chocolate, na Rua Haddock Lobo, sem dúvida uma das mais caras do Banco Imobiliário paulista, junto com a Rua Oscar Freire, o equivalente tropical de uma Rua Saint-Honoré em Paris.

Em certos casos, ocorre que a riqueza não se sente à vontade num bairro por demais apertado como o dos Jardins e que ela resolve mudar-se para bairros modernos e promissores. Uma prova desta tendência é a loja Daslu, com os seus 20.000 m2 de luxo absoluto, um "shopping-bunker" que migrou em 2005 do bairro de Vila Nova Conceição para o vasto canteiro de obras de um futuro núcleo de urbanismo futurista à proximidade da Marginal Pinheiros, uma espécie de auto-estrada urbana que acompanha o rio, ultra poluído, do mesmo nome.

Uma espécie de quadrado com colunas inspiradas na Grécia antiga que custou US$ 50 milhões (cerca de R$ 111 milhões), a Daslu acolhe seus clientes privilegiados com fausto. Manobristas trajando fraque e boné branco e preto, simpáticas e prestativas criadas de quarto de avental bordado, vendedoras "vitrines" que vestem a marca da casa.


Pode-se encontrar de tudo na Daslu: bolsas Vuitton, jeans Dolce & Gabbana, calçados Gucci, pulôveres Chanel, tudo importado. Perfumes, carros (Mini Cooper e Maserati), aparelhos de televisão de tela plana, modelos de iates. Pode-se também chegar de helicóptero pelos tetos e se refrescar no bar de champanhe projetado por David Collins, o arquiteto predileto de Madonna.

Aos membros da "jet set" ou aos seus fregueses endinheirados --uma clientela, na sua maioria, urbana, mas que inclui também um bom número de riquíssimos fazendeiros oriundos do interior do Estado de São Paulo, em geral a bordo de vans 4x4 blindadas com os seus guarda-costas num segundo veículo--, a Daslu propõe "um quadro de vida protegido".


 


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