Como poderíamos,
por mais credenciado, respeitado e conhecedor que
fôssemos determinar que um vinho seja o melhor do
mundo? Para quem ele é melhor? Ou melhor, que quais
outros? Em que circunstâncias ele foi provado para
que se decidisse que ele é melhor que todos os
demais?
Poderíamos, se fosse o caso de ter de definir qual o
melhor vinho do mundo, separá-los em categorias:
"melhor vinho com muita fruta do mundo"; "melhor
vinho levinho do mundo"; "melhor vinho com muita
madeira do mundo", entre tantas outras. E nem assim
seria o melhor para todos. Cada consumidor tem um
gosto: uns gostam de fruta, outros de madeira,
outros de vinhos mais velhos, outros mais jovens,
outros simplesmente de vinhos que caibam no seu
bolso.

E com certeza o melhor vinho do mundo não
agradará a todo mundo. Se ele for super encorpado,
poderoso, cheio de nuances de frutas vermelhas,
cedro, ervas, couros, etc (como sempre são os
grandes premiados) ele não cairá muito bem num fim
de semana a dois na praia. Nem tampouco poderá ser
apreciado numa festinha entre amigos beberrões numa
sexta-feira à noite.
Nem em um jantar com pratos
delicados. Menos ainda em um almoço aborrecido de
negócios (bem, aí talvez sim nos salvaria da
entediante situação). Nem em muitas ocasiões em que
o vinho é a melhor pedida, mas não necessariamente o
protagonista. E estas ocasiões são as mais
freqüentes.

E mesmo se saímos do dia a dia e ficamos entre as
ocasiões especiais, como dizer que "o melhor vinho
do mundo" é melhor que tantos outros? Tomamos um
Brunello, ou um Barolo, e eles têm tanta história
para contar mesmo não sendo os melhores do mundo...
Um Porto, com tantos séculos de história, não é a
melhor pedida do mundo depois de um gostoso jantar?
Os grandes Bordeaux — que estão sempre entre os
melhores das listas divulgadas, Bourgogne, Riojas,
os vinhos do Novo Mundo... enfim, cada um representa
seu país, sua história, sua cultura, têm sua
personalidade própria.
Faz diferença que sejam
melhores que todos os demais?
Até seus pequenos
defeitos e particularidades revelam a riqueza da
diversidade. E fica a pergunta: para que definir um
tipo de vinho como o melhor (sim, porque eles acabam
se repetindo) se justamente na diversidade está sua
riqueza?

Não devemos tirar o mérito da degustação que define
as qualidades ou os defeitos do vinho. Ela é
importante para traçar as linhas aromáticas e
gustativas do vinho e para descrevê-lo para que o
leitor entenda como é, e o compre ou não, dependendo
de seu gosto. Também pode dizer se um vinho de certa
categoria é melhor que o outro. Essas críticas são
importantes tanto para os leitores de guias e
revistas como para os produtores, que saem da
inércia e se vêem obrigados a produzir vinhos
melhores. As pontuações também servem para orientar
um pouco o leitor, pois algumas pessoas entendem
melhor números do que palavras.
Mas
voltemos ao melhor vinho do mundo. Suponhamos que
ele tenha uma nota 100, minha pergunta é: o que o
separa do que tem 99 pontos (fora o preço)? E o que
o separa do segundo melhor vinho do mundo? E, ainda,
para que serve dizer que um vinho é o melhor do
mundo se não for para jogar seu preço nas alturas e
ninguém ter acesso a ele, fora alguns poucos
privilegiados com dinheiro suficiente para
comprá-lo?
Este tipo de classificação parece ir na contramão
hoje em dia. Estamos em uma época em que as
publicações tendem a aproximar a bebida de todos, a
desmistificar o vinho, a trazê-lo para mais perto do
cliente, do consumidor do dia-a-dia. O melhor vinho
do mundo é o vinho certo, na hora certa, com a
companhia certa (seja ela a comida ou uma pessoa).

Cada um deve definir qual, dos vinhos que provou, é
o melhor. E, ainda assim, este conceito muda, vai
evoluindo conforme o gosto do bebedor evolui. O
melhor vinho do mundo quem define é cada um de nós.
O vinho existe para ser tomado e cabe a vocês dizer
o que é bom ou ruim.
